Artigo: A Importância da Nova Enoarquitetura

Publicado por: Arte Arquitetura | 15 de setembro de 2015

Eno-arquitetura

Abaixo você confere, na integra, o artigo realizado pelo arquiteto e sócio da Arte Arquitetura, Jean Carlo Sanches dos Reis. Realizado para a disciplina: Pesquisa de Referência em Arquitetura Comercial da Pós Graduação em Arquitetura Comercial do SENAC Sorocaba.

A Importância da Nova Enoarquitetura 

Jean Carlo Sanches dos Reis 

RESUMO

A importância em trabalhar com referencias na arquitetura comercial, em especial à Enoarquitetura. Arquitetura esta que transcorre em forte transformação mundialmente ao desapegar de suas tradições seculares, e começa a influenciar a Enoarquitetura brasileira a se libertar de uma herança inexistente.

Palavras chaves: Enoarquitetura; Vinícola; Arquitetura Comercial;

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INTRODUÇÃO

O emprego de referencias na arquitetura sempre serviu como base inicial de um projeto, podendo ser utilizada de diversas formas em diferentes fases do desenvolvimento de um projeto. Pode-se separar em três momentos básicos a aplicação do uso de referencias: a primeira situação a que o arquiteto ou escritório de arquitetura é convidado a apresentar uma proposta de trabalho para um determinado tema ou programa de necessidades ou tecnologia construtiva entre outras faces da arquitetura, que não faz parte do currículo ou cotidiano de trabalho do convidado em questão, dado este momento inicia-se a pesquisa afim obter conhecimento de causa a fim de se situar melhor dentro da abordagem; noutro momento, as referencias servem para enriquecimento de conhecimentos a serem aplicados sobre um projeto em desenvolvimento, visando agregar e/ou a validar soluções empregadas; por último, apontamos o uso da referencia, para demonstrar ao cliente que a solução apresentada no projeto, pode funcionar, ou parecer com a referencia apresentada, ou mesmo para elucidar como a referencia demonstrada não deve ser aplicada ao projeto em desenvolvimento, sendo a solução diferente projetada uma opção melhor a ser seguida.

            Na Enoarquitetura há relatos da produção vinícola desde sete mil anos antes do nascimento de Cristo (Larousse, 2007: 17) ao decorrer dos últimos séculos, sendo que as construções foram tratadas apenas como o local de produção de vinho durante muito tempo, utilizando-se de uma arquitetura funcional, sem apelo estético, muito menos monumental, se confundindo com as demais instalações da propriedade e de seu entorno. Não havendo também nenhum incentivo o turismo local, nem ao menos através de uma estrutura adequada aos visitantes e possíveis consumidores. Ao se tratar dos produtores de renome e consequentemente com melhor estrutura física, o padrão arquitetônico em sua grande maioria ou quase totalidade eram de castelos, château vitícolas ou vilas italianas, reunindo sob o mesmo programa arquitetônico a condição de moradia e a funcional, porém estimulando a nobreza do produto com a aplicação de uma arquitetura comercial enaltecendo o luxo.

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Figura 1 – Vinícola Francesa – https://www.parisprovence.com.au/cycling_tours_bordeaux.htm

A produção vinícola brasileira inicia-se com a imigração de italianos provenientes do norte da Itália em 1875, ao sul do Brasil, na região das Serras Gaúchas, e na cidade hoje conhecida cidade como Bento Gonçalves no estado do Rio Grande do Sul. Junto dos imigrantes, vieram consigo os costumes e inclusive as tecnologias construtivas e projetuais, ocasionando a aplicação de uma arquitetura relacionada diretamente à sua região de origem, concedendo poucas adaptações para a realização em nosso país.

O estado do Rio Grande do Sul é o maior produtor de vinho no mercado nacional, tendo a região das Serras Gaúchas a maior concentração dos produtores nacionais, gerando um relevante movimento de turismo através de suas vinícolas.

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Figura 2 – Vinícola Miolo, Bento Gonçalves, RS, Brasil – http://media-cdn.tripadvisor.com/media/photo-s/05/11/05/17/vinicola-miolo.jpg

O panorama da Enoarquitetura brasileira ainda é de construções referenciadas na Enoarquitetura europeia, não representando em sua grande maioria das vinícolas, o desempenho que o vinho brasileiro tem obtido em concursos internacionais, principalmente quando se trata de vinhos espumantes, o grande destaque atualmente da produção nacional. É evidente a falta de uma maior interação entre os produtores e a arquitetura nacional, para que assim se tenha uma representação mais adequada do produto à nossa desenvolvida arquitetura.

DESENVOLVIMENTO

A partir do momento que o vinho passa a ser visto pelo mundo como um produto de status e não mais só uma bebida, se iniciam os trabalhos de valorização do produto através da arquitetura comercial, como forma de promover a bebida numa tradução do que ela represente em forma de uma edificação. Extrapola-se o ato de beber um vinho, para o ato de consumir um estilo de vida, Castelos, Châteus Vitícolas e Vilas, são as referencias deste mercado mundial e inclusive o brasileiro, que excluindo o imigrante europeu que vivenciou essa tradição, para o restante da população mundial e brasileira, faz muito pouco sentido a aplicação destes conceitos, sendo que se tem referencias excelentes ao tratar de arquitetura modernista e contemporânea brasileira, que poderiam estar sendo contempladas nas edificações destinadas ao vinho nacional.

Como outras regiões geográficas não tradicionais na produção vinícola e até improváveis num primeiro momento, onde pode ser citados países como Argentina, Chile, Austrália, Nova Zelândia, África do Sul e até o Vale do São Francisco, passam a se destacar de modo excepcional na qualidade de seus produtos no mercado mundial, e a ausência de tradição no segmento, às libertam de quaisquer amarras às referencias enoarquitetônicas do passado. Vê-se então, um movimento que utiliza de referencias tradicionais quanto aos métodos de produção, e seus devidos aprimoramentos que agreguem altíssima qualidade ao produto. Porém em relação à arquitetura, se utilizam outras referencias não relacionada à Enoarquitetura tradicional, possibilitando a inserção de outras temáticas provenientes de outros setores, mas com forte identidade ao produtor e/ou da região.

Valoriza-se o processo de não se comercializar apenas uma bebida, mas todo um conjunto de percepções onde entra em destaque o Enoturismo, gerando o conceito de vender uma experiência que agregue valores imensuráveis ao produto. A visita ao vinhedo, à adega, degustações de produtos, gastronomia e hotelaria, desencadeia novos negócios embasados no vinho para a arquitetura comercial, gerando um mercado na área civil para dirimir as diversas necessidades a serem supridas pela tríade composta pelo produtor, agenciadores de turismo e o consumidor final, relevando a necessidade de aplicar uma arquitetura comercial mais concisa e ajustada à realidade e expressão de cada produtor e região.

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Figura 3 – Vinícola Opus One, Napa Valley, CA, EUA – http://sr1.wine-searcher.net/images/news/35/08/Opus-One–10003508.jpg

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Figura 4 – Vinícola Dominus Estate, Napa Valley, CA, EUA – http://www.dominusestate.com/wp-content/uploads/2015/03/home.jpg

Os exemplos acima são de duas vinícolas na região de Napa Valley nos Estados Unidos da América, demonstrando que a falta de tradição e vinho de alta qualidade, possibilitam facilmente a exploração de uma arquitetura que se referencia a outros contextos, sem se limitar a antiga figuração das tradicionais vinícolas. Neste sentido a Opus One é considerada marco inicial do desenvolvimento desse novo movimento da Enoarquitetura.

“…o marketing do vinho em que as instalações mais modernas começaram a ter valor nas estratégias das empresas – a imagem da vinícola passa a apoiar a imagem do produto e a representá-lo – e o turismo do vinho, que aproxima as pessoas da elaboração e torna-se uma experiência única, mas que necessita de uma boa estrutura ao seu redor” (Eliana Bormida: 2010)

Inicia-se um grande desafio para às vinícolas europeias em se readequar ao consumidor, agora mais exigente que não deseja apenas admirar qualidade excepcional do vinho, mas a transposição de suas qualidades a sua toda cadeia produtiva, administrativa e comercial. O marketing torna a sugerir alianças a grandes renomes da arquitetura mundial, uma vez que a associação do nome da vinícola ao idealizador do projeto, passa a ser um elemento de diferenciação no vinho, uma vinícola projetada por um expoente, pode gerar mais status ao produto final e consequentemente mais vendas.

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Figura 5 – Bodega Darien – http://www.rentautobus.com/en/spain/la-rioja/item151

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Figura 6 – Cantina Antinori – http://winesurf.it/img_notizia/1546/cantinaantinori_esterno.jpg

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Figura 7 – Antinori Cantina – Jean Carlo Sanches dos Reis

Exemplifica-se o novo movimento da Enoarquitetura europeia, as duas vinícolas expostas acima, a Bodega Darien na Espanha e Cantina Antinori na Itália, que são a síntese da aplicação dos mais recentes conceitos na produção do vinho, isso é fazendo a produção toda por gravidade, controle da temperatura através da implantação e uso de materiais para obter a manutenção da temperatura da cave de forma sustentável, entre outros fatores que enfim em ambos os casos, se agregam valores ao produto através de suas edificações e tecnologias empregadas. O arquiteto Jesús Marino Pascual recebeu o Prêmio de Artes do Governo de Rioja, e o escritório Archea teve a Cantina Antinori entre os cinco melhores concorrentes ao Prêmio Mies Van der Rohe 2015, ou seja, projetos que foram destaques além do setor da Enoarquitetura, havendo reconhecimento na produção arquitetônica em geral dentre aos mais diversos projetos que participam destes concursos.

Semelhantes na estrutura funcional, os dois projetos se distanciam em muito em sua relevância na paisagem, enquanto Paschual enfatiza a estética externa em meio ao vinhedo e a suave topografia, Archea implanta o edifício na colina de modo a quase ser imperceptível ao fazer parte dela, valorizando muito mais o interior das instalações, com destaque em proporcionar aos visitantes, uma visita guiada de forma a não interromper as atividades rotineiras da vinícola, mesmo podendo estar conhecendo todos os processos através de muitas elegantes passarelas. Mesmo assim enaltecendo toda a qualidade da produção e produtos, através de espaços altamente qualificados e com o emprego de materiais regionais e tecnológicos de modo harmonioso e funcional.

Quanto a enoarquitetura nacional, se tem uma profusão de edificações dedicadas ao vinho com o amplo e restrito uso de referencias tradicionalmente europeia, e até mesmo alguns casos de simples adaptações que foram desenvolvidas sem a importância em agregar valores extras ao produto através da arquitetura, como exemplo a Vinícola Góes instalada na cidade de São Roque, interior de São Paulo, e inclusive a vinícola Aurora instalada nas Serras Gaúchas, que é detentora de diversas marcas, sendo uma das principais vinícolas em se tratando de faturamento no nosso mercado, a Aurora pouco procurou se atualizar como as demais vinícolas pelo mundo.

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Figura 8 – Vinícola Góes – http://hotelcidadesaoroque.com.br/images/goes02.jpg

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Figura 9 – Vinícola Aurora – http://media-cdn.tripadvisor.com/media/photo-s/02/b7/5e/42/vinicola-aurora.jpg

A arquitetura foi tema abordado em 2008 no Fórum Internacional de Viticultura e Enologia – FEAVIN, onde a arquiteta Vanja Hertcert apresentou uma síntese do seu trabalho, uma grande pesquisa na concepção da enoarquitetura pelo mundo, relacionando em outras publicações de sua autoria, a importância em agregar na arquitetura a identidade da marca, a expressão do vinicultor, levando em conta inclusive a embalagem. Vanja Hertcert atualmente é a arquiteta que mais tem produzido projetos na área conforme contatado na pesquisa realizada para constituição desse artigo. Em muitos projetos se observa a resistência do cliente soltar as amarras e permitir uma evolução, porém se verifica em outros projetos a uma liberdade de expressão ainda tímida, mas proporcionando a aplicação de soluções mais adequadas à região de implantação do empreendimento.

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Figura 10 – Ilustração Vinícola Santo Emílio – http://www.arqvanja.com.br/projetos/nav#/vinicolas/santo-emilio/

CONCLUSÃO

Conclui-se que o movimento de renovação da enoarquitetura é recente, não se transcorreu nem duas décadas em que os primeiros projetos inovadores foram realizados. Nessa seara ainda há muito que se aprimorar através da maior interação entre o enólogo, produtor, arquiteto, marketing, consumidor e parceiros regionais.

Em termos globais, há como se utilizar de muita referencia relevante dentre esses vinte anos de produção arquitetônica, principalmente em relação aos casos onde as permissões de um maior desligamento das tradições ocasionaram num rumo para uma arquitetura espontânea e com muito mais alma dos seus envolvidos, situações destas que estão em lenta absorção pela Enoarquitetura nacional. Por muitas vezes relacionada à resistência do próprio produtor em desprender do passado inexistente e assumir segurança ao inovador. Acredita-se que o mercado nacional poderia usufruir de um maior destaque nos mercados nacionais e internacionais, se inteirando do movimento de renovação com a aplicação dos modelos de referencias apresentados no artigo, assim atraindo mais apreciadores do mundo para nossa produção vitícola, e elevando o faturamento de todo uma cadeia comercial com base no ciclo vinho e turismo.

REFERÊNCIAS

http://www.arqvanja.com.br/

http://revistaadega.uol.com.br/

http://www.confrariadovinho-bg.com.br/index.php?id=38

http://www.regiaodosvales.com.br/municipios/noticias/noticia.php?idc=1&id=14261

http://www.regiaodosvales.com.br/municipios/noticias/noticia.php?idc=1&id=14261

http://www.bonvivant.com.br/

http://www.jornaldanoite.com.br/2009/fevereiro/vinhos.htm

http://www.revistaconstruarte.com.br/monta.asp?link=noticia&qual=19

http://www.viticultura.org.br/materias/index.php?id=64

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